Mariana Paniz
@maripaniz
Mariana Paniz
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Envelhecemos um pouco a cada dia, de maneira lenta e implacável. E, se sabemos desde sempre que vamos envelhecer, como explicar o fato de não nos prepararmos para isso? Precisamos aprender, hoje, a construir uma velhice que não negue as grandes transformações que o tempo traz, mas que seja uma fase em que se busque o bem-estar e a alegria até o último suspiro.
O título dessa coluna leva o nome do último livro da médica geriatra e paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes. Tratase de um pequeno manual que todos precisamos ler. E precisamos passar adiante. E precisamos debater cada linha sobre independência e vitalidade, sobre aprender a lidar com os lutos cotidianos da velhice, sem nos esquecermos de que ainda estamos vivos e que, ainda assim, a vida vale a pena ser vivida.
O livro é uma aula de lucidez, uma obra que envolve, emociona e transforma completamente o nosso olhar acerca da velhice. É um misto de emoções: olhar para trás e ver quem amamos de mãos dadas com o tempo que já passou nos dá, muitas vezes, um nó na garganta. Olhar para frente, pensando na nossa própria viagem, também aperta o peito. A autora nos relembra, o tempo todo, das verdades que o passar dos anos nos entrega: ficar velho gera perdas e rigidez, em mais de um sentido: nas articulações e no coração. Para ela, conversar a respeito da morte faz olharmos, para nossa vida, com os olhos mais abertos e ouvidos mais atentos. Assim, acabamos por nos tornar pessoas muito mais presentes em nossas próprias vidas quando percebemos que nossa presença não é eterna.
O manual relata, com muita clareza, que envelhecer é um processo complexo, que não se limita à saúde física: envolve o bem-estar mental, as emoções e a sociabilidade. Exercício físico é absolutamente imprescindível para quem se propõe a envelhecer bem, mas o segredo para fortalecer o cérebro é aprender. Aprender música, canto, meditação e, principalmente, aprender a receber cuidados, um dos processos mais difíceis da nossa existência, contudo, que pode fazer toda a diferença nos passos finais da nossa estrada.
Confesso: olhar para a velhice ainda me causa um desconforto, e as palavras macias e impactantes da autora me fizeram refletir com lágrimas nos olhos, diversas vezes, ao longo da leitura. O que mais me marcou, durante a leitura, foi a definição de que somos mais as memórias que juntamos do que o futuro que planejamos. Nessa viagem, em direção ao fim da estrada, vamos levar quem a gente é. E somos quem lembramos que somos, com as memórias que construímos ao longo da vida, ao lado de quem amamos, fazendo o que deixa o nosso coração mais feliz. Ana Cláudia Quintana Arantes diz: existência não é a conta bancária, o guarda-roupa, o álbum de fotografias: é amor na memória, é vida pulsando!
A boa notícia é que, todos os dias, a vida nos oferece oportunidades de construir passados com as pessoas que amamos. Esses passados vão alimentar nossas memórias, e essas lembranças serão doces no nosso tempo de envelhecimento. Quando essas pessoas forem embora, seja daqui a três meses ou daqui a setenta anos, ficaremos com toda a história construída nesse tempo de convívio. E o agora é o momento de construirmos nossas memórias – pra vida toda valer a pena viver. POR