
“Ninguém está bem.” Provavelmente, você tenha ouvido isso no último mês, desde que começou a tragédia climática no estado. Esse mal-estar coletivo não envolve apenas questões econômicas e doenças físicas, mas também o contexto da saúde mental. O momento coloca em evidência o trabalho de profissionais essenciais para superar esses momentos de angústia e buscar o equilíbrio emocional: os psiquiatras. A psiquiatra Denise Freitas, mestre em Ciências da Saúde pela UFSM e psicoterapeuta de orientação analítica, tem se dedicado a ajudar pacientes a enfrentarem os impactos emocionais nas mais diversas fases de suas vidas.
– As pessoas, mesmo em pleno século 21, carregam muitos estigmas sobre a nossa profissão. Então, elas chegam à primeira consulta um pouco desconfiadas. São muitas as dúvidas que passam pela cabeça delas quando se sentam para sua primeira consulta comigo, que depois de um tempo de vínculo elas me contam: 'Será que ela vai me entender?' 'Ela vai me julgar?' 'Ela vai achar que meu caso não é nada? Mas para mim é grave.' 'Será que tem gente pior que eu?' 'Ela vai me ajudar a melhorar?' 'Será que ela tem experiência?'... e assim vai... Conforme os pacientes vão me conhecendo, vendo como eu conduzo a conversa, como é a minha escuta e percebem que eu estou sintonizada com eles, entendendo a demanda que os aflige, eles se tranquilizam e inclusive abrem mais pautas para serem analisadas... Explico a melhor conduta naquele momento... Se fármaco, se psicoterapia ou ambos... E ali se abre uma porta pela qual vamos entrar para buscar o melhor caminho para a cura daquele sofrimento – afirma Denise.
Para ela, o momento atual e os próximos meses exigem bastante atenção.
– Estamos vivendo um momento de luto, seja de quem perdeu tudo na enchente, seja de quem está incansavelmente na linha de frente, ou de quem não foi atingido diretamente, mas já apresentava suas dores psíquicas prévias e elas foram agravadas em meio a toda essa tragédia – comenta.
Denise é uma profissional que se destaca pela capacidade de ter uma escuta ativa de seus pacientes. Com experiência há 10 anos como psicoterapeuta, suas consultas, mesmo clínicas, são conduzidas numa abordagem psicoterápica. Para ela, compreender os traumas e conflitos individuais é fundamental para oferecer um tratamento adequado, que vai além da medicação.
– Em alguns casos, a medicação tem um alcance limitado. Temos que entender o que se passou com o paciente, quais são seus traumas, seus conflitos, a história da família, e assim auxiliá-lo no seu processo – explica.
As sessões com Denise duram cerca de uma hora, em que ela busca conhecer ao máximo o paciente antes de estabelecer a melhor conduta para o tratamento.
– Para ser psiquiatra, além de ser um bom ouvinte, temos que ter muita empatia. E essa entrega do profissional durante a escuta só ocorre se estamos com a nossa saúde mental em equilíbrio. Quando o psiquiatra sabe empatizar, cuidar, compreender e acolher a si, ele não terá receios de fazer isso com o seu paciente, pois o psiquiatra estará bem, apto e disponível para tratar seu paciente e conduzi-lo da melhor maneira durante o seu acompanhamento. Por isso, é fundamental que o psiquiatra valorize a sua própria saúde mental, para o bem do seu paciente, já que suas emoções refletem na sua prática profissional – explica a psiquiatra.
Ela enfatiza que o seu papel é escutar e interpretar o paciente, auxiliando-o a encontrar caminhos mais saudáveis para sua saúde mental.
– Muitas vezes, as pessoas acreditam que é preciso ter algo muito grave para buscar um psiquiatra. Mas qualquer sofrimento psíquico que cause angústia e prejudique sua vida pessoal, laboral ou social, é um sinal de que é preciso buscar ajuda. Isso acontece, inclusive, nas crianças. Quanto antes se inicia o tratamento, melhor. Alguns pais ficam receosos de iniciar o tratamento e, muitas vezes, essa angústia vai tomando conta da vida delas e traz consequências para o aprendizado e as relações pessoais – alerta.
Para Denise, momentos de crise exigem uma atenção redobrada à saúde mental. Ela acredita que nos próximos meses haverá um aumento significativo na demanda por atendimento psicológico, com casos de ansiedade e insônia se tornando mais comuns.
– Existem diferentes níveis de envolvimento com tragédias como essas e as pessoas, mesmo as que não foram diretamente afetadas, podem apresentar algum tipo de sintoma. Assim como é preciso estar atento a quem esteve na linha de frente, também é importante observar quem não esteve, mas de alguma forma está vivendo esse luto – afirma.
Segundo a psiquiatra, é fundamental que as pessoas respeitem seus próprios limites e não se sintam culpadas por não conseguirem ajudar em todas as frentes. Denise defende que devemos ajudar se podemos e se estivermos dispostas a isso, dentro das nossas condições e realidade, sem julgamentos e sem comparações... E que também não devemos negligenciar nossa parte saudável, de autocuidado, de hábitos saudáveis e de descanso. Para ela, algo positivo que pode acontecer é o crescimento pós-traumático, quando situações trágicas levam a mudanças na vida das pessoas, como se dedicar mais à família, valorizar e cuidar mais da saúde e ampliar a rede de amigos.
– Não se trata apenas de aumentar a resiliência, mas se transformar a partir da dor. Revendo a maneira de se enxergar no mundo, de lidar com os relacionamentos, com o dinheiro, trabalho e novas escolhas, a fim de viver uma vida com mais sentido e propósito. Esse processo do crescimento pós-traumático é algo gradual, que dependerá da flexibilidade cognitiva da pessoa.
