Na casa simples onde Rony Pillar Cavalli cresceu, em São Francisco
de Assis, havia um campo de futebol bem em frente. Foi ali, entre
amigos e poeira, em meio a traves improvisadas e gols de chinelo,
que ele aprendeu a emoção de marcar um gol. Anos depois,
descobriu algo que trazia uma sensação semelhante, porém na
profissão que escolheu para a vida: o Direito. Sentir a vitória de
uma ação judicial.
– Quando a gente monta uma ação, estuda muito para isso, e
quando ganha uma decisão judicial, uma liminar ou um recurso no
tribunal, é a mesma sensação de marcar o gol na final do campeonato.
É aquela sensação de trabalho cumprido – comenta.
E foram muitos golaços ao longo da carreira. Mas o embrião de
tudo começou ainda menino, aos 11 anos e meio, quando Rony
teve o primeiro contato com o Direito. Foi no escritório de advocacia
do doutor Amaro João Fernandes Dominguez – advogado
culto, exigente e generoso – que Rony assumiu a função de secretário:
levava processos ao fórum, fazia pagamentos em bancos,
organizava documentos, tudo isso no turno inverso ao da escola.
Mas não era só isso. Aprendia muito, observando, ouvindo, revisando
textos com esmero e debatendo regras do português.
– Foi uma grande coincidência, porque o doutor Amaro era amigo
do meu pai, e havia saído o menino que trabalhava com ele.
Como meu pai era comerciante, eu já estava acostumado a fazer
vários serviços para ele, inclusive os bancários. Então, meu pai me
ofereceu para trabalhar com o doutor. Foi uma vivência incrível.
Ele redigia com muita perfeição e, quando eu tinha uns 15 ou 16
anos, fazia com que eu e o filho dele revisássemos suas peças
para corrigir o português. E, apesar de não precisar, porque ele
tinha um português perfeito, ele nos puxava. Nós fazíamos verdadeiros
debates de língua portuguesa comandados pelo doutor
Amaro no escritório. Aquilo tudo mudou a minha vida, porque vivi
um escritório de advocacia dos 11 anos e meio aos 18, quando
vim para Santa Maria fazer vestibular para Direito – conta.
Aquele escritório de paredes silenciosas e ideias firmes foi seu primeiro
campo de batalha, e também o seu primeiro lar intelectual.
Foi ali que aprendeu que o Direito não é só norma, mas também
linguagem, lógica e ética. E foi ali, entre processos e sustentações,
que ele começou a escrever, não apenas petições, mas o próprio
destino.
Filho de Eva Mari Pillar Cavalli e João Estevan Cavalli, comerciantes
humildes de São Francisco de Assis, Rony viu nos estudos o
caminho para retribuir os sacrifícios dos pais para a criação dele
e suas duas irmãs, Rosa Mari e Liliani Janeti. O pai se alfabetizou
no Mobral. A mãe, com pouco mais de 30 anos, formou-se técnica
de enfermagem. Liliani Janeti, o ajudou financeiramente durante a
faculdade. Presentes de aniversário? Eram livros.
A família não oferecia luxo, mas oferecia base.
A escolha por seguir a advocacia, em vez da magistratura ou do
Ministério Público, nunca foi dúvida. Rony nunca quis o poder de
julgar, mas a responsabilidade de defender. “Ser advogado é ser a
voz de quem não tem voz”, como ele sempre defende.
E, nessa missão, ele sempre buscou coerência entre a teoria e a
prática. Acredita que o bom advogado não é aquele que ganha todas,
mas o que nunca trai seus princípios, ainda que isso lhe custe
derrotas.
– Prefiro perder com dignidade a vencer dobrando aquilo em que
acredito – afirma, sem hesitar.


ENTRE O DIREITO
E A PATERNIDADE


Chegou a Santa Maria para cursar Direito na UFSM. Fez cursinho
pré-vestibular e, entre estudos e adaptação, trabalhou como modelo
para Robsom da Costa

Maria Eduarda nasceu e cresceu ao lado dele. Aos 11 anos, passou
a morar com o pai. Foi Rony quem cuidou dos estudos, quem
a conduziu ao Colégio Militar, quem lidou com as fases da adolescência.
Não foram raras as noites em que a mesa da cozinha
virou banca de estudo. Enquanto ele revisava contratos, ela resolvia
questões de física. A convivência intensa gerou embates, como
é próprio entre pais e adolescentes, mas também forjou cumplicidade.
Rony impôs disciplina, e Maria Eduarda respondeu com
comprometimento. A aprovação em Medicina não foi surpresa, foi
consequência. Rony fala da jovem com os olhos que brilham, como
quem fala de uma obra-prima.
– De tudo o que construí, ela é o projeto mais importante da minha
vida – orgulha-se.
Entre o Direito e a criação da filha, Rony também cultiva suas paixões
discretas: os livros, os gatos, os almoços em família. Gosta
do clássico, do artesanal, do que resiste à pressa. Foi com a filha
que aprendeu a apreciar a delicadeza felina. Hoje, em sua casa,
vivem duas gatas, uma delas descendente direta da felina de sua
mãe, já falecida.
– Cuidar da gata da minha mãe é como continuar cuidando dela
– diz.



UM HOMEM DE
OPINIÕES FORTES

Advogado há 30 anos, Rony trilhou caminhos diversos. Lecionou
na universidade, atuou em causas militares e se especializou em
planejamento patrimonial e sucessório. Está abandonando o
contencioso com desgosto:
– Não há nada mais frustrante que ver uma decisão judicial sem
fundamento destruindo um trabalho técnico.
Quando fala do Brasil, o tom muda. A crítica, embora técnica, é
carregada de indignação. Rony se decepcionou com os rumos
da Justiça, com as decisões ideológicas, com a instabilidade das
regras.
– Nenhum investidor sério deposita confiança num país em que
as leis mudam conforme o juiz – argumenta.
Nos corredores das instituições que lecionou, como a faculdade
Antônio Meneghetti, ensinou que o Direito começa nos
fundamentos, nas raízes filosóficas.
– Era frustrante ter que dizer aos alunos que o Direito dizia uma
coisa e o tribunal fazia outra – relembra.
Mesmo assim, insistia:
– É justamente por estarmos perdendo o eixo que precisamos
ensiná-lo com mais força.
Sua crítica à Justiça brasileira é afiada. Fala sobre a politização
do Judiciário, sobre o afastamento dos fundamentos da ciência
jurídica. É intransigente com os valores. E é nessa intransigência
que reside sua coerência.
Hoje, à frente do Pillar Cavalli Advogados, aposta no modelo
boutique: atendimento artesanal, sob medida para cada família.
– Cada história é única. Planejar é proteger.
Fala com paixão sobre as holdings familiares, sobre a necessidade
de se pensar a sucessão ainda em vida, para evitar que o
patrimônio se dilua em impostos e burocracias. E lembra que não
se trata de ter muito:
– Mesmo quem tem só um imóvel pode perder tudo se não
planejar.
Rony quer transformar a cultura brasileira do CPF para a do CNPJ
– da pessoa física para a jurídica. Ensina em artigos, fala em
rádios, organiza eventos. E, mesmo longe do magistério formal,
segue educando.
– Sinto falta da sala de aula. Mas não da frustração de dizer a
um aluno que os fundamentos do Direito dizem uma coisa, mas
o STJ faz outra.
A polidez do discurso não encobre a firmeza de opinião. Rony é
um conservador assumido. Valoriza a família tradicional, ainda
que respeite novas configurações. Defende o Direito como pilar da
democracia e acredita que, sem uma advocacia forte, não há país
forte.
– É o advogado quem protege o cidadão dos abusos do Estado
– afirma.
Ao lembrar dos pais, emociona-se. Em 2019, perdeu a mãe. Em
2021, o pai. Durante dois anos, foi a São Francisco de Assis todos
os finais de semana para cuidar do pai. Com as irmãs, segue unido.
Uma mora em Manoel Viana a outra em São Francisco, mas os
encontros familiares continuam.
– Somos a continuidade. Precisamos honrar pai e mãe pela forma
como nos criaram.


O FUTURO DO NEGÓCIO


Na profissão, Rony olha para frente. O futuro do escritório inclui
um novo braço em Brasília, com a sócia Dagmar Zeferino.
Perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, Rony responde
com simplicidade:

Rony é também alguém que sabe o valor da escuta. Nos
atendimentos, ouve os clientes com a paciência de quem entende
que, por trás de cada patrimônio, há uma história de vida. Um
terreno comprado com o suor de décadas, uma casa construída
com esforço mútuo, um filho que precisa ser protegido. Para ele, o
planejamento sucessório é mais do que um serviço: é uma missão.
– As pessoas não querem deixar só bens. Elas querem deixar
cuidado, continuidade, dignidade, legado.
Apesar da postura séria e da fala firme, quem convive com Rony
sabe que ele também é de boas amizades. Muitos colegas da
faculdade viraram amigos de vida. Alguns, como ele próprio brinca,
foram testemunhas dos churrascos improvisados da juventude,
daqueles tempos em que o orçamento era curto, mas a vontade
de viver era imensa.
Hoje, com a vida financeira mais tranquila e a profissão bem
estabelecida, há um Rui Barbosa na parede do escritório, um
quadro clássico, pintado por Marilia Chartune. Na sala, poltronas
que acolhem. Na estante, livros. E, em cada gesto, a marca de um
homem que construiu sua história com disciplina, valores, mas
também com afeto.
Alguém que ergueu a filha com a mesma firmeza com que sustenta
uma tese jurídica. E que segue, entre audiências e cafés, cuidando
da vida dos outros como quem cuida da própria.
Porque, no fim, Rony Pillar Cavalli é um homem que aprendeu
cedo que o Direito não está apenas nos livros. Está na mesa da
cozinha, na forma como se trata a família, na maneira como se
honra um pai. Está naquilo que se constrói quando a vida é levada
com seriedade. E com responsabilidade.